20 de setembro: o que comemoramos?
No início o habitante do pampa era chamado de "guasca". O termo muitas vezes citado como se fora pejorativo, recebe de Machado de Assis (in Quincas Borba) significado de elogio. Ao referir-se a uma filha do Rio Grande, diz: "É uma guasca de primeia ordem".
Pouco mais tarde, no século XVIII surge o termo "gaudério", tanto no território brasileiro quanto no castelhano. O gaudério, tido como homem sem lei nem rei, que "morava na sua camisa, debaixo do seu chapéu", mantinha-se num equilíbrio instável entre o índio e o branco. A sua atividade marginal estendeu-se por mais de um século de história do pampa.
O termo "gaúcho" surgiu, provavelmente, no último quartel do século XVIII e aparece como sinônimo de "gaudério". O sentido pejorativo da palavra gaúcho, numa e noutra banda, mantém-se quase inalterado, até meados do século XIX.
Herman Burmeister, em sua obra Reise durch die la Plata-Staaten (1861), assim descreve o gaúcho: "Erro grave é considerar os Gaúchos como gente grosseira ou brutal, ou, sem mais rodeios, como simples salteadores e bandidos; longe disso, o que os caracteriza é principalmente uma viva suscetibilidade e um inegável sentimento cavalheiresco, que logo os leva a ter em conta de superior toda pessoa mais ilustrada, ou de mais alta categoria social, que os tratar com deferência. Pelo contrário, a altivez e a grosseria provocam de sua parte uma repulsa imediata".
Cantando em prosa e verso, o gaúcho traz no nome o resumo de uma história, traz na alma a liberdade e no coração o sentimento nativista mais notório entre os brasileiros.
As características fundamentais de uma sociedade e dos homens e mulheres que a compõe é invariavelmente consequência de uma história.
No entando, encontramos aqui e acolá, historiadores ou "palpiteiros" que procuram descrever o gaúcho como um amrginal, um homem sem escrúpulos, machista, ladrão, contrabadista, e assim por diante. Esquecem que o homem é, e sempre foi, um elemento do seu meio e do seu tempo. Rude, forte, "as vezes bandido, mais sempre livre, era o Gaudério. Aquele homem deve ser compreendido e estudado a partir dos conceitos morais e da ética vigente a sua época. Querer jugá-lo hoje, com os padrões sociais e éticos da sociedade contemporãnea é descabido.
No Rio Grande do Sul, território disputado por Portugal e Espanha, o Gaúcho adquire algumas características próprias, desenvolvendo um gosto muito apurado pela aventura e pelas ascaramuças bélicas. O Estado foi por muito tempo, tanto por necessidade quanto pelo gosto, um grande quartel. Do dia para a noite as fazendas se transformavam em quartéis e os peões em soldados. Bastava um toque de clarim para transformar a peonada em companhia ou batalhão. O objetivo era quase sempre o mesmo: garantir que o território não fosse dominado pelos castelhanos. Em 1835 o processo foi outro. Os sul-riograndenses se rebelaram contra os Portugueses. Contra a tirania política e econômica do Império Brasileiro que tratava a província com desdém.
No início, a Revolução Farroupilha, era uma manifestação de inconformidade, uma exigência de melhor tratamento, depois, com a intransigência imperial, se transformou numa tentativa de autonomia. A idéia de República fervilhava entre os farroupilhas. O desejo de autodeterminação era notório. No entanto havia, como sempre houve, um sentimento superior: o sentimento de brasilidade. A República Rio-Grandense foi proclamada e durou mais de oito anos, o que não impediu à assinatura de Paz que reforçou a brasilidade do gaúcho.
Não comemoramos virória bélica. Não comemoramos conquistas territoriais. Não comemoramos a guerra e suas nefastas consequências.
Comemoramos a nossa história, a nossa construção social, as convicções e a ideologia dos farroupilhas e festejamos a nossa identidade sócio-cultural.
O bairrismo quem nos caracteriza, decorre da história e do tipo de formação da sociedade sul-rio-grandense e não devemos negar ou se envergonhar dele.
O MTG e os CTGs, por sua vez, desempenham o papel de "trincheira cultural" onde homens e mulheres, livremente, se reúnem para defender, valorizar e vivenciar, sempre em família, a nossa história, a nossa cultura, o nosso folclore, a nossa tradição.
Aos críticos e "historicistas" garantimos que sabemos o que queremos e fazemos aquilo que nos determina a consciência e o dever cívico, em cada 20 de setembro.
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